sexta-feira, junho 17, 2005

Morreu Jean Pignero, militante ecologista exemplar

Por José Carlos Marques,
16 de Junho de 2005

Morreu ontem, quarta 15 de Junho, nos arredores de Paris, em Seine-Port, Jean Pignero, que gostava de se considerar descendente de portugueses (pelo apelido Pignero) e que chamou a um dos seus escritos, simplesmente, João (em português).


Morreu com 91 anos, numa clínica de reformados, cinco anos depois da morte da mulher (por Alzheimer). Ele próprio, lúcido e interessado pelo mundo até há pouco mais de um ano atrás, e depois já muito apagado devido a um problema motor que já não lhe permitia fazer a vida normal que o mantinha vivo e ainda activo pela escrita e pela correspondência.

Tinha-o visitado (sabia que pela última vez pois regresso em breve definitivamente a Portugal, mas não esperava que partisse antes do meu regresso) no sábado 11 de Junho. Encontrei-o já com dificuldades de falar e confuso nas respostas, mas ainda com um olhar muito vivo, e feliz pela minha visita e a de Gérard Pierrot, actual presidente da associação que JP havia fundado, a APRI (associação de protecção contra as radiações ionisantes).

Simples professor primário, modestíssimo, de uma bondade que impresiona (foi talvez a pessoa mais bondosa que conheci, sem nenhum alarde porém), voltou-se para a luta contra as radiações ionisantes e contra o nuclear pelo cuidado com a saúde dos seus alunos, pelo espírito cívico, pelo gosto da verdade e pelo desassombro perante os poderosos.

No início dos anos 1970 esteve associado ao então grande movimento antinuclear francês, que em 1977, com a morte numa manifestação pacífica do militante antinuclear Vital Michalon, junto à central nuclear de Creys-Malville, entrou em recessão. Hoje, a França é o país mais "toxicodependente" da energia nuclear.

Também a revista La Gueule Ouverte, fundada por Pierre Fournier (falecido aos 35 anos em 15 de Fevereiro de 1973 com uma doença de coração crónica que se manifestou nesse dia súbita e fatalmente), se iniciou com destaque à crítica da microrradiografia obrigatória, inclusive com colaboração de JP.

Mais tarde entraria em relativa obscuridade (nunca foi famoso, aliás, nem sequer no meio ecologista), sem parar de intervir e de publicar no âmbito da APRI uma massa impressionante de documentação. A partir dos anos 1980, a sua reflexão virou-se para as questões da deontologia médica, jornalística e política, já que era aí que encontrava as raízes das poluições que denunciava e dos ataques às liberdades individuais que a indústria nuclear representava.

Esse trabalho foi coroado com uma proposta de constituição realmente democrática. Essa obra foi traduzida em português com o título AS CONSTITUIÇÕES DEMOCRÁTICAS DO TERCEIRO MILÉNIO (colecção Viver é Preciso, Afrontamento, Porto, 2000). O título é expressivo, pois essa proposta permanecerá actual por muito tempo ainda. Ela recolhe os mais necesarios ideais e ideários da ecologia, da paz e da liberdade.

Saiu também em português, nos anos 1980, a sua obra sobre a microrradiografia, na nossa língua com o título UM ATENTADO À SAÚDE PÚBLICA: A MICRORRADIOGRAFIA SISTEMÁTICA E OBRIGATÓRIA.

Nos anos 1970, mais precisamente em 1975, tinha saído em português, na mesma colecção e na mesma editora, uma obra editada por Jean Pingero e pela APRI, da autoria do médico Pierre Pizon, intitulada O ÁTOMO E A HISTÓRIA, uma obra de grande envergadura e uma excelente panorâmica da problemática das radiações, do nuclear dito civil e das suas conexões com o nuclear bélico.

Jean Pignero esteve em Portugal em Abril de 1983 (salvo erro; ou seria 1984), num seminário sobre a problemática nuclear, organizado pelo jornal Terra Mágica, por iniciativa de Jorge Fidalgo, então professor em Portimão e fundador e director do jornal, e de António Quaresma e outros ecologistas de Vila Nova de Mil Fontes, onde o seminário decorreu (grupo cujo nome não recordo agora).

Fez ainda pequenos colóquios sobre o mesmo assunto em Setúbal por convite do Projecto Setúbal Verde (que viria a fundir-se e a tornar-se um dos esteios da primeira época da Quercus) e em Lisboa.

Alguns pequenos textos de Jean Pignero foram escritos de propósito para a revista Ar Livre e nela publicados.

Leiam As Constituições, de Jean Pignero. Encontrarão lá decerto muitomaterial de reflexão.

1 comentário:

Pedro Miguel Rocha disse...

Embora me fosse desconhecido o nome e vida de Jean Pignero, quero agradecer pelo artigo exposto neste blog, sendo que seguramente irei procurar os livros deixados em referência.

Aproveito ainda para convidar a visitar o novo Blog www.solariso.blogspot.com no qual será exposto semanalmente um artigo sobre um tema Ambiental.

Obrigado